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Urbanismo NÃO é mobilidade


Em outubro de 1957, o Sputnik 1 foi lançado o primeiro satélite artificial capaz de orbitar ao redor da Terra e isso por si só, é uma condição privilegiada para a consciência global. Foi nesse momento que passamos não só a perceber a nossa incrível biosfera, mas também a sua fragilidade e as cicatrizes causadas pelo homem no dia a dia. A verdade é que, não percebemos no dia a dia, mas o crescimento das cidades tem causado um desastroso impacto aos recursos naturais que interfere diretamente na sobrevivência de uma sociedade equilibrada e sustentável.

Se pararmos para avaliar e pensar sobre o conceito de cidade, muito provavelmente o termo ‘qualidade de vida’ não será bem lembrado. No Brasil, por exemplo, entre 1940 e 1980, a proporção entre a população urbana e rural se inverteu, o número de pessoas morando em cidades passa de 30% a 70%, surgindo a partir daí, a revolução industrial trazendo diversos problemas que antes não se apresentavam. O fato é que, elas se tornaram verdadeiros campos de interesse individuais, mas a ideia aqui não é trazer a concepção de que tudo está perdido. Se pensarmos de forma mais otimista, as cidades brasileiras têm buscado de certa forma, conectar e transportar os indivíduos das mais diversas formas e isso interfere diretamente na vitalidade dessa evolução urbana. O que pode parecer oculto diante de todas essas visões é que automóvel talvez seja o principal responsável pela deterioração das cidades, isso pelo simples fato de estimular e viabilizar o excessivo deslocamento, que na teoria, pode parecer um aspecto interessante, mas ao mesmo tempo, fez com que fosse possível separar as nossas atividades, fazendo com que as pessoas se desloquem grandes percursos diariamente.

Embora a mobilidade e o urbanismo sejam termos correlatos, é importante destacar que o primeiro é muito mais associado ao deslocamento e o segundo se trata da qualidade desse deslocamento, e não só do deslocamento. A mobilidade tem o objetivo de desenvolver relações sociais e econômicas, no dicionário mobilidade significa “facilidade de se locomover”. Urbanismo significa “modo de vida característico das cidades”.

Agora o que eu trago para a pauta é a qualidade dessas relações. Do ponto de vista estrutural, os meios de transportes que mais impactam negativamente as cidades, são os mais privilegiados com infraestrutura. Nos últimos meses, tenho pedalado bastante pela cidade e um dos dias na volta para casa fiquei refletindo sobre essa dinâmica. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, os veículos de maior porte são sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres. O que fica visivelmente claro no dia a dia é que a falta de infraestrutura para os veículos não motorizados e pedestres sempre causa insegurança para estes usuários e isso vai desde as condições dos passeios, ciclovias e ciclofaixas até o desconforto do deslocamento sem vegetação, sinalização e iluminação.

No final das contas, não sabemos ao certo as consequências da crescente urbanização. O que sabemos é que as cidades crescem cada vez mais de forma intensa e o que podemos observar até agora, é que esse jogo pode nunca virar. Em algumas cidades do mundo como Copenhague e Amsterdam isso já se tornou realidade e os números podem provar o impacto na qualidade de vida e felicidade das pessoas. Enquanto urbanista, além de sempre trazer esses assuntos para a pauta, continuo explorando a cidade de outras formas e sempre valorizando mais o tempo de olhar para ela do que a velocidade dos deslocamentos. A cidade definitivamente não pode ser um local só de passagem.

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